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A piora do cenário para a inflação no Brasil tem levado o mercado financeiro a reduzir as projeções de cortes de juros pelo Banco Central este ano. Enquanto bancos e consultorias vêm diminuindo as apostas de reduções da Selic, no mercado futuro têm crescido as negociações de contratos que preveem até a manutenção da taxa na reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) que acontecerá nos dias 16 e 17 de junho.
Esse cenário colocará sob pressão o Banco Central comandado por Gabriel Galípolo, indicado para o cargo pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. De um lado, o governo federal deseja que a Selic caia mais rapidamente para estimular o crescimento e o otimismo econômico a poucos meses das eleições presidenciais. De outro, o mercado financeiro entende que a credibilidade do BC estará novamente em teste, com a piora das expectativas.
“O Banco Central vai ter de lutar contra o Executivo. Não vai ser simples”, afirmou o economista José Márcio Camargo, da Genial Investimentos. “Nosso call (projeção) passou a ser apenas mais um corte, com a Selic caindo de 14,5% (atuais) para 14,25%. Mas nossa avaliação é que deveria parar agora”, explicou.
BTG Pactual e Bank of America revisaram cenários, prevendo apenas mais um corte. Já a XP Investimento e a G5 Partners apostam em mais dois. Na terça-feira, 2, o BTG emitiu relatório para defender a manutenção da Selic, mas afirmou que o BC deve promover o corte de 0,25 ponto porcentual, em função do que já foi sinalizado em comunicados anteriores.
“Nossa avaliação é que a decisão mais adequada seria pausar já em junho (o corte na Selic), até haver maior clareza sobre a materialização desses riscos e sobre a persistência dos efeitos secundários que já se materializam”, disse o banco. “Ainda assim, como a comunicação do Copom continua apontando para a continuidade do processo de calibragem, nosso cenário-base é de um último corte de 25 pontos-base em junho, levando a Selic a 14,25%, seguido de estabilidade até o fim de 2026.″
Ao longo da última semana, nas negociações de juros do mercado futuro, quando os investidores negociam contratos com apostas para a Selic em diferentes períodos, as apostas pela estabilidade da Selic este mês saltaram de 27% para 46%, na quarta-feira, e chegaram a 60% no pregão de sexta.
O Bank of America revisou os seus números na sexta-feira, 5, apostando em apenas mais uma redução da Selic. O banco, que previa a taxa em 13,25% no fim de 2026, agora acredita que ela ficará em 14,25%.
“A mudança reflete uma combinação de deterioração nas dinâmicas atuais de inflação, aumento das expectativas de inflação e um real mais fraco”, afirmou o chefe de economia para Brasil e de estratégia para América Latina do Bank of America, David Beker.
Sérgio Vale, economista-chefe da MB Associados, culpa a política fiscal do governo Lula, que estimulou a demanda e pressionou os preços. Por ora, ele mantém a Selic em 13,5% no final do ano, mas reconhece que a projeção está sob revisão e pode subir para 14%.
“Parte importante do que está acontecendo é culpa do governo com a política fiscal expansionista. Não tivéssemos nessa situação, poderíamos acomodar melhor o choque de combustíveis e El Niño, sem falar do potencial impacto da PEC 6×1, caso seja imposta de forma imediata”, disse. “Serão dois anos difíceis para o BC, e vai demandar Selic elevada durante um bom tempo”, completou.
A XP Investimentos entende que o BC fará dois cortes e só voltará a ter espaço para reduzir a Selic em 2027.
“As perspectivas de inflação no Brasil se deterioraram por razões de oferta e de demanda. Prevemos agora apenas dois cortes de 0,25 p.p. na Selic, para 14% (esperávamos três reduções antes, para 13,75%), seguidos por uma pausa para avaliação. O Copom pode retomar o ciclo de flexibilização monetária em 2027, caso a política fiscal se torne menos expansionista”, explicou a XP em revisão de cenário.
EUA também pesam no cenário
O cenário internacional também tem pesado sobre as mudanças nas projeções de juros no Brasil. Na última sexta-feira, 5, o mercado financeiro aguardava com atenção a divulgação dos dados do mercado de trabalho americano, que vieram mais fortes do que o esperado. Com isso, cresceram as apostas de que o Fed, Banco Central dos EUA, tenha menos espaço para reduzir os juros.
Os dados do mercado de trabalho formal americano (payroll) vieram acima do projetado pelos economistas pelo terceiro mês consecutivo, em maio. Embora o presidente Donald Trump venha pressionando o Fed para cortar os juros, esse espaço está cada vez menor, segundo economistas.
Os juros mais altos nos EUA tendem a tornar o dólar mais forte globalmente. Com isso, o Banco Central brasileiro precisa manter a Selic mais elevada, sob risco de provocar uma desvalorização mais intensa do real, com impactos sobre a nossa inflação.
No Brasil, de acordo com dados do Boletim Focus, as expectativas de inflação deste ano estão subindo há 12 semanas seguidas, e já chegam a 5,09%, muito acima do centro da meta (3%) e também do limite de tolerância (4,5%).
Um dos temores é de que a piora da inflação “corrente” possa contaminar a inflação futura. A economia brasileira é altamente indexada, o que torna mais difícil o trabalho do Banco Central de levar os preços para a meta.
Fonte: Estadão
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