Inflação perto de zero emagrece retornos do Tesouro IPCA+

13/08/2026

Com inflação de 0,07% no mês, o retorno dos títulos indexados fica quase todo por conta do juro real, mas gestores e consultores dizem que a taxa de entrada é o que deve pesar na decisão – por Angelo Pavini

A inflação em desaceleração tende a emagrecer os rendimentos das aplicações corrigidas pelo IPCA, caso do Tesouro IPCA+ (NTN-Bs), das debêntures atreladas ao indexador, além de fundos imobiliários de papel e de fundos de renda fixa e de crédito privado.

O índice subiu 0,16% em junho e desacelerou para 0,07% em julho, com expectativa de uma pequena deflação em agosto. O número do mês não altera, porém, o quadro mais amplo: a inflação acumulada em 12 meses até julho ainda está em 4,44%, distante de um cenário de estabilidade de preços.

O retorno mensal de um título indexado à inflação combina duas parcelas, o juro real contratado na compra e a variação do IPCA no período. Com o IPCA em 0,07%, sobra praticamente só a primeira. Um título Tesouro IPCA+7% ao ano rende 0,57% de juros no mês, o que somado à inflação chega a 0,64% de retorno total. Com taxa de 8% ao ano, o retorno total sobe para 0,71%. No mesmo período, o CDI ficou em cerca de 1,1%.

Todos os números são brutos, antes de Imposto de Renda, que é isento para os rendimentos das debêntures incentivadas. A diferença entre os retornos é o que o mercado chama de custo de oportunidade, ou seja, o que o investidor deixou de ganhar por estar em outra aplicação, o que não significa um grande prejuízo nem motivo para desistir da posição.

Por que o Tesouro IPCA+ segue no radar
O número baixo do IPCA de julho já era esperado pelo mercado pela própria sazonalidade e não deveria alterar a estratégia de quem busca investir nos ativos indexados ao índice, diz Luís Garcia, CIO (diretor de investimentos) da SulAmérica Investimentos. Ele aponta que o mês rende menos em termos de carrego, o retorno acumulado por manter o papel em carteira, mas que esse efeito já estava incorporado aos preços.

“Pontualmente, é um mês de carrego menor, mas que já estava no preço dos títulos”, acrescenta Garcia. “Dito isto, neste mês o título terá um rendimento abaixo do CDI”, avalia. O gestor não acredita que a inflação mais baixa mude o apetite dos investidores pelo Tesouro IPCA+, mas admite que a demanda pelo título, em geral, tem estado fraca. “Não é à toa que as taxas estão altas”, diz.

No curto prazo, o rendimento nominal desses títulos deve ser relativamente menor, mas o rendimento real continua interessante, mantendo o ganho de capital e o poder de compra do investidor, ressalta Matheus Jaconeli, analista de investimentos e portfólio da ZIIN DTVM. Para ele, mesmo com uma rentabilidade nominal mais baixa, o papel de inflação do Tesouro ainda continua atrativa e necessária para o portfólio.

Daniele Bresolin Zuchetto, consultora de investimentos da Unicred Porto Alegre, lembra que uma inflação menor não significa piora da rentabilidade real do investimento. Além disso, a inflação de um único mês tem pouca importância para quem investe com horizonte de longo prazo. “O que realmente importa é a trajetória da inflação ao longo do período e, principalmente, a taxa real obtida no momento da compra do título”, diz.

As três fontes convergem nesse ponto, o de que o dado mensal não justifica mexer na posição, já que o resultado de quem carrega o papel até o vencimento é definido pela taxa travada na compra. A divergência aparece na comparação com os prefixados.

Prefixados e pós-fixados na comparação
Apesar da taxa real atraente do Tesouro IPCA+, Garcia, da SulAmerica, não vê neste momento como elas vão performar melhor que as aplicações prefixadas de prazo similar. “O grande definidor de preços dos ativos brasileiros será a eleição e como o vencedor irá se posicionar sobre a questão fiscal”, diz. “Até lá, não vejo grandes alterações de rentabilidade dos títulos pré ou pós fixados.”

Jaconeli, da ZIIN, avalia que uma inflação mais fraca favorece a queda das taxas mais longas, o que faz o preço do título subir e proporciona um ganho adicional a quem vende antes do vencimento. Outras aplicações corrigidas pela inflação também continuam atrativas, especialmente as com isenção de Imposto de Renda para pessoa física, como as debêntures incentivadas e os fundos incentivados de investimento em infraestrutura, os FI-Infras. “O cuidado, como em outros momentos, precisa estar na liquidez e risco de crédito do emissor”, afirma.

Os papéis pós-fixados corrigidos pelo CDI ou pela Selic, caso das LFTs e dos CDBs atrelados ao CDI, seguem com ganhos elevados e continuam sendo uma boa âncora de liquidez, observa Jaconeli. Ele se refere aos títulos individuais, cujo valor acompanha a taxa básica e oscila muito pouco antes do vencimento, e não a fundos de crédito privado, que carregam risco de preço. “Entregam excelente rendimento nominal com risco zero de marcação a mercado.”

Já os papéis corrigidos pela inflação, públicos ou privados, oferecem proteção contra possíveis choques inflacionários no futuro e permitem travar taxas altas como as de agora. Jaconeli prefere os vencimentos intermediários, aqueles no meio da curva, que oscilam menos que os mais longos diante de mudanças nas expectativas de juros. “Vértices intermediários são o ideal para não ter tanta volatilidade de períodos mais longos”, sugere.

Os prefixados (LTNs e NTN-Fs) ganham espaço não só pela redução da inflação hoje, mas porque pode haver nova queda mais adiante, principalmente se as questões relacionadas ao Oriente Médio continuarem a se resolver e a atividade econômica seguir dando sinais de desaceleração. “Mas é necessário moderação nos prefixados pois o risco fiscal e o período eleitoral ainda podem trazer volatilidade”, completa Jaconeli.

Cuidado com a volatilidade
Zuchetto, da Unicred, chama a atenção para o mesmo efeito de preço apontado por Jaconeli, o da marcação a mercado, que é a atualização diária do valor do título conforme as taxas negociadas. Se o dado mais fraco de inflação levar o mercado a acreditar em uma queda mais rápida dos juros e das taxas reais dos títulos longos, os títulos Tesouro IPCA+ já emitidos com taxas elevadas podem se valorizar, permitindo um ganho expressivo a quem vender antes do vencimento.

Para ela, o Tesouro IPCA+ continua interessante sobretudo para quem tem objetivos de médio e longo prazo e quer garantir o poder de compra e uma rentabilidade real. “Uma remuneração de IPCA mais 8% ao ano representa um prêmio bastante elevado para quem consegue carregar o investimento até o vencimento”, diz. Ela acrescenta que a inflação acumulada ainda está longe de zero e existe sempre o risco de a inflação voltar a acelerar ao longo do tempo.

Os títulos prefixados podem ganhar atratividade quando o investidor acredita que as taxas de juros e a inflação vão cair no futuro, avalia Zuchetto, mas existe o risco de a inflação subir mais do que o esperado, reduzindo o ganho real desses papéis. Já os investimentos atrelados ao CDI ou à Selic são mais interessantes quando o objetivo é ter liquidez, menor exposição à marcação a mercado ou aproveitar um cenário de juros ainda elevados. “Hoje, com a Selic em 14% ao ano, a renda fixa pós-fixada continua muito competitiva.”

“Eu não colocaria a questão como uma escolha entre ‘IPCA ou CDI’ ou ‘IPCA ou prefixado’”, diz. O mais eficiente estrategicamente, recomenda, é pensar em diversificação entre os três tipos de remuneração de acordo com os objetivos e as necessidades do investidor.

Fonte: Infomoney

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