Deflação reforça corte da Selic, mas não alonga afrouxamento monetário

27/08/2026

Conta de luz, passagens e alimentos puxam índice para baixo; pressão dos serviços limita espaço para uma sequência de reduções

A deflação de 0,40% registrada pelo IPCA-15 em agosto foi maior do que o mercado esperava e reforça a possibilidade de o Banco Central cortar a Selic em 0,25 ponto percentual em setembro. Mas a composição do índice recomenda cautela: boa parte do alívio veio de descontos temporários ou de preços bastante voláteis.

Com o resultado, a inflação acumulada em 12 meses recuou de 4,52% para 4,24%, voltando a ficar abaixo do teto da meta, de 4,5%. Ainda assim, permanece distante do centro, fixado em 3%. Os dados divulgados pelo IBGE mostram ainda que a queda não foi disseminada por toda a economia.

A energia elétrica residencial recuou 6,25% e retirou, sozinha, 0,26 ponto percentual do IPCA-15. O movimento foi provocado principalmente pelo Bônus de Itaipu, creditado nas contas de agosto e que não se repetirá no próximo mês.

Os transportes também contribuíram, com queda de 13,30% das passagens aéreas e de 1,43% dos combustíveis. Na alimentação, ficaram mais baratos produtos como tomate, batata, cenoura e café. Na outra ponta, despesas pessoais, educação e saúde avançaram. A alimentação fora de casa também continuou subindo.

Para Juliana Inhasz, economista e professora do Insper, o resultado deixa o Copom mais confortável para promover uma redução moderada dos juros, mas não permite antecipar uma sequência prolongada de cortes.

“O corte de 0,25 ponto em setembro parece mais provável e a situação fica mais confortável. Mas qualquer coisa além disso não consegue ser justificada pelo indicador de hoje”, afirma.

O time de estratégia de inflação da Warren Investimentos, formado por Andréa Angelo, Laís Camargo e Júlia Freitas, faz uma leitura ainda mais cautelosa. Segundo as economistas, a surpresa ficou concentrada em alimentos in natura, energia e passagens, enquanto os indicadores mais persistentes não apresentaram melhora significativa.

“Olhando o qualitativo, nossa leitura foi de lateralidade, sem melhora relevante. Núcleos e serviços subjacentes vieram mais pressionados em alguns componentes”, afirma a equipe. Na avaliação da Warren, o resultado “não deve afetar relevantemente a leitura do Banco Central para a inflação”.

A expectativa é de que o IPCA volte a subir em setembro, quando as contas de luz deixarem de contar com o bônus. As passagens aéreas também não formam uma tendência duradoura, porque os preços respondem rapidamente à sazonalidade, ao petróleo e a choques externos.

Além dessa devolução, permanecem riscos relacionados ao clima, à energia e à inflação de serviços. A Warren estima que um El Niño intenso possa acrescentar cerca de 0,40 ponto ao IPCA de 2026 e mais 0,20 ponto no primeiro trimestre de 2027. A inflação anualizada dos serviços intensivos em mão de obra, segundo a instituição, continua acima de 7%.

É justamente nos serviços que estará o teste mais importante dos próximos meses. Para que a desinflação seja considerada estrutural, Juliana avalia que será necessário observar núcleos mais baixos, menor disseminação dos reajustes e desaceleração consistente dos serviços.

“Não basta ter redução da conta de luz ou do preço dos alimentos porque é período de safra. É preciso ver um arrefecimento dos serviços, núcleos mais baixos e a difusão perdendo força”, diz.

Ou seja, a deflação de agosto trouxe alívio concreto para o bolso e melhorou a inflação acumulada em 12 meses. Mas ainda não demonstrou que as pressões persistentes foram vencidas.

O IPCA-15 até ajuda a sustentar um corte de 0,25 ponto da Selic em setembro. Porém, para dar continuidade ao corte de juros, o Banco Central precisa de algo que a prévia dos preços de agosto ainda não entregou: uma inflação estruturalmente mais baixa.

Fonte: CNN Brasil

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