Os recordes negativos que acendem o alerta para a economia brasileira

10/09/2026

Crédito caro pressiona famílias e empresas, enquanto o rombo das estatais e o crescimento da dívida expõem a fragilidade das contas públicas (Lígia Moraes)

Quase 84 milhões de brasileiros estavam inadimplentes em julho, o maior número já registrado pela Serasa Experian. O avanço das contas atrasadas é apenas um dos recordes negativos acumulados pela economia brasileira: o endividamento das famílias, a inadimplência das empresas, as recuperações judiciais e o déficit das estatais federais também alcançaram níveis inéditos ou os piores resultados de suas respectivas séries.

A deterioração ocorre com a taxa básica de juros em 14% ao ano. A Selic elevada encarece empréstimos e financiamentos, aumenta o custo de renegociação das dívidas e leva os bancos a serem mais rigorosos na concessão de crédito. Para as famílias, isso significa prestações maiores e uma parcela menor da renda disponível para o consumo. Para as empresas, significa menos dinheiro para financiar estoques, ampliar operações e manter as contas em dia.

A proporção de famílias endividadas chegou a 81,6% em maio, recorde da pesquisa realizada pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). O levantamento considera compromissos ainda a vencer, como faturas de cartão, empréstimos e prestações de imóveis e veículos. Portanto, estar endividado não significa necessariamente estar inadimplente, situação em que a conta vence e não foi paga.

A inadimplência, no entanto, também avançou. Os quase 84 milhões de consumidores com dívidas atrasadas representavam aproximadamente metade da população adulta do país em julho. O comprometimento mensal da renda das famílias com o pagamento de débitos estava próximo de 30%, um dos maiores níveis da série do Banco Central, iniciada em 2007.

Entre as empresas, 9,2 milhões de negócios estavam inadimplentes, com R$ 239 bilhões em compromissos vencidos, segundo a Serasa Experian. O problema alcança desde pequenos estabelecimentos até grandes companhias e indica que parte das empresas já encontra dificuldades para pagar fornecedores, bancos, funcionários e impostos.

Quando a renegociação direta com os credores não é suficiente, algumas companhias recorrem à recuperação judicial, processo que suspende temporariamente determinadas cobranças para permitir a reorganização das dívidas sem interromper as atividades. O Brasil chegou a 6.341 empresas em recuperação judicial em junho, maior patamar registrado pelo Monitor RGF-BizDoc. O número cresceu 66% em três anos.

A lista recente inclui empresas conhecidas, como Casas Bahia, Marabraz, Grupo Gennius, controlador das redes Habib’s e Ragazzo, e Braskem. A Casas Bahia busca renegociar cerca de R$ 17,3 bilhões, enquanto a Marabraz declarou dívidas de aproximadamente R$ 140 milhões. A Fertilizantes Heringer obteve proteção temporária contra cobranças para negociar débitos de R$ 834 milhões, e a Chilli Beans iniciou uma reestruturação para tratar de cerca de R$ 600 milhões devidos a bancos.

A dificuldade das empresas afeta o restante da economia porque limita investimentos, contratações e compras de fornecedores. O crédito caro também reduz o consumo das famílias, enfraquece as vendas e diminui o dinheiro que entra no caixa dos negócios. Forma-se, assim, um ciclo no qual juros elevados, menor atividade e inadimplência se reforçam.

Os sinais negativos também aparecem nas contas públicas. As estatais federais acumularam déficit de R$ 8,277 bilhões entre janeiro e julho, o pior resultado para o período desde o início da série do Banco Central, em 2002. Déficit significa que, somadas, essas empresas gastaram mais do que arrecadaram. O cálculo não inclui Petrobras, Eletrobras nem bancos públicos.

A crise dos Correios ajuda a explicar a deterioração. A empresa registrou prejuízo de R$ 8,5 bilhões em 2025 e contratou um empréstimo de R$ 12 bilhões, com garantia do Tesouro Nacional, para pagar dívidas e reforçar o caixa. O próprio governo já reconheceu a possibilidade de novos aportes de recursos públicos na companhia.

No conjunto formado por União, estados, municípios e estatais, as contas públicas registraram déficit primário de R$ 78,8 bilhões nos sete primeiros meses de 2026, ante R$ 44,5 bilhões negativos no mesmo período do ano anterior. O resultado primário compara receitas e despesas antes do pagamento dos juros da dívida.

Quando os juros são incluídos, o desequilíbrio é muito maior. O déficit nominal chegou a R$ 1,24 trilhão nos doze meses encerrados em julho, equivalente a 9,34% do Produto Interno Bruto. Desse total, R$ 1,15 trilhão correspondeu às despesas com juros.

A dívida bruta do governo atingiu R$ 10,95 trilhões em julho, ou 82,5% do PIB. Foi o maior percentual desde abril de 2021 e representou uma alta de 10,8 pontos percentuais desde o começo do terceiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva. Quanto maior a dívida, maior tende a ser o volume de recursos necessário para pagar juros e mais difícil se torna abrir espaço para investimentos e políticas públicas.

O avanço do endividamento ocorre apesar da arrecadação elevada. O governo projeta receitas federais de R$ 3,24 trilhões em 2026, equivalentes a 23,7% do PIB. Caso a estimativa seja confirmada, será a maior proporção da série do Tesouro Nacional, iniciada em 1997. O dado indica que o desequilíbrio não decorre apenas de falta de arrecadação, mas também da dificuldade de controlar o crescimento das despesas.

Economistas avaliam que a expansão dos gastos públicos aumenta a dívida, piora as expectativas para a inflação e reduz o espaço para a queda dos juros. O governo, por sua vez, atribui parte da desaceleração e das dificuldades de acesso ao crédito à Selic elevada e aposta em programas de renegociação de dívidas e estímulo ao consumo.

Essas iniciativas podem oferecer alívio temporário, mas não eliminam os fatores que levaram famílias e empresas ao atual nível de endividamento. Com crédito restrito, juros ainda altos e contas públicas pressionadas, os recordes negativos deixam de representar problemas isolados e passam a indicar um risco mais amplo para o consumo, os investimentos e o crescimento da economia.

Fonte: Veja

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