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Apesar de o setor estar mais maduro em relação aos ataques, novas tecnologias dificultam preparação contra hackers (Por Raphael Pati)
A explosão de novas tecnologias nos últimos anos, impulsionada principalmente pelo salto da inteligência artificial (AI), aumenta o alerta para as empresas protegerem os próprios sistemas de possíveis invasões. Determinados setores são mais críticos e dependem de segurança reforçada no armazenamento de dados e informações sigilosas, como grandes mineradoras, redes de saúde e companhias aéreas. Nesse contexto, as instituições financeiras têm um histórico de controle mais restrito para impedir os cibercrimes. Mesmo assim, os dados mostram crescimento dos ataques nos últimos anos.
Uma sondagem do Banco Central aponta que, no ano passado, houve 76 notificações de ataques cibernéticos a empresas que operam diretamente no sistema financeiro nacional. Na série histórica, em 2023, foram notificadas 24 invasões, e, em 2018, esse número era de apenas sete. Outro dado apresentado pela autoridade monetária mostra que, de julho de 2025 a junho deste ano, os ataques hackers causaram a perda de mais de R$ 1,5 bilhão por parte dessas empresas.
O aumento do número desses ataques deve-se ao avanço da concorrência no setor bancário e da inclusão de usuários bancarizados, devido à entrada do Pix. Entre 2020 e 2025, o número de fintechs atuantes no mercado financeiro cresceu 77%, com cerca de 2 mil empresas. A perspectiva, no entanto, é de chegar a 3 mil instituições até o ano que vem, conforme levantamento da A&S Partners. Além disso, o número de instituições de pagamento em operação no Brasil passou de uma, em 2016, para 128, no começo de 2024 — salto de 12.700%.
O Banco Central publicou duas novas regras para a política de cibersegurança do setor, e ampliou restrições para o uso do Pix. As mudanças constam nas Resoluções BCB 538/2025 e CMN 5.274/2025, que preveem requisitos mínimos adicionais à política de segurança cibernética, como ações de inteligência, rastreabilidade de operações, testes de intrusão, controles de acesso, proteção de rede e aplicação regular de correções.
Riscos maiores
Apesar de as regras terem o objetivo de endurecer a atuação de criminosos, o BC já espera aumento do número de casos de ataques contra as instituições em 2026. Somente nos cinco primeiros meses do ano, foram contabilizados 43 incidentes, sendo que 34 deles corresponderam a fraudes. Para o gerente de Segurança Cibernética da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), Valdir Assef, a chegada do Pix, em 2020, elevou ainda mais os riscos em relação às instituições.
“Hoje em dia, com o Pix, estamos falando de um meio de pagamento que faz quase 200 milhões de transações por dia. Se esse sistema não for muito robusto, a gente quebra”, destacou Assef, que comemora a evolução do sistema de transferências gerado com o pagamento instantâneo, mas ressalta que a rapidez cobra um custo maior das empresas para o sistema de pagamento instantâneo. “Isso é ótimo. A economia ganhou um dinamismo enorme. Só que, para que isso funcione 24×7, é preciso um sistema com muita tecnologia e suportado por muita segurança”, acrescentou.
Neste mês, o BC publicou novas regras sobre o uso do Pix. Uma delas, que já entrou em vigor, é a não obrigação do uso do meio de pagamento instantâneo caso a instituição financeira não tenha um perfil de clientes que necessite desses mecanismos. Anteriormente, elas ainda tinham que contar com o Pix no seus softwares e aplicativos. Para além do uso do Pix, o representante da Febraban lembrou que as normas que regem atualmente a segurança das instituições financeiras já são consideradas restritivas o suficiente e se aprimoram cada vez mais, com as experiências de falhas recentes, como a provocada na C&M Software. O crime gerou um rombo de quase R$ 1 bilhão para a empresa.
“A norma vem para corrigir as fragilidades decorrentes desses acidentes ou para acelerar a adoção de boas práticas que o Banco Central identificou dentro do setor. Então, é complexo, sim. Não é uma coisa trivial de se implementar. A política de segurança que o Banco Central exige, hoje, de uma instrução financeira não é para amadores, mas a gente entende que ela é absolutamente essencial para garantir a segurança de um sistema que, no fim das contas, protege a economia do país”, disse Assef.
Principal alvo
O Brasil é um dos países que mais sofre ataques hackers no mundo. No primeiro semestre deste ano, sistemas operacionais de empresas, instituições e pessoas físicas foram alvo de 249,3 bilhões de tentativas de ataques e atividades cibernéticas maliciosas. Os dados foram publicados em agosto, no relatório Cenário Global de Ameaças, produzido pela multinacional de cibersegurança Fortinet.
Na avaliação do vice-presidente de Engenharia da Fortinet Brasil, Alexandre Bonatti, o setor financeiro é um dos mais evoluídos do país em relação à cibersegurança, justamente por apresentar uma regulamentação há mais tempo e ter um risco ainda maior de perda financeira para as empresas. Para o executivo, o principal desafio será expandir o uso da inteligência artificial nessas instituições sem comprometer a segurança operacional dos sistemas.
Além do surgimento de novas funcionalidades, os bancos estão cada vez mais digitais e as agências viraram o próprio smartphone. Tudo é feito na palma da mão, como exemplificou o advogado especialista em crimes cibernéticos Luiz Augusto D’Urso.
Especialista em proteção de dados e gestão de riscos, Bruno Souza Pinto avaliou que o desafio principal seria elevar a maturidade da cadeia inteira. “O criminoso procura o elo mais fraco, e muitas vezes esse elo não está no banco, mas ao redor dele”, afirmou.
Fonte: Correio Braziliense
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