Permissão a bets fez afastamentos do trabalho por vício em jogo aumentar mais de 400% em dois anos

20/10/2026

Cresce número de pessoas que receberam auxílio do INSS por incapacidade temporária devido à ludopatia. Regulação das bets, em dezembro de 2023, coincide com alta de afastamentos por vício em apostas (Por Luany Galdeano)

O número de afastamentos no trabalho provocados pelo vício em apostas cresceu 441% em dois anos, a partir da regulamentação das bets, em dezembro de 2023. Naquele ano, 67 pessoas receberam auxílio por incapacidade temporária do INSS (Instituto Nacional do Seguro Social) devido à ludopatia, número que saltou para 363 em 2025, segundo dados do Ministério do Trabalho.

No período analisado, houve também alta no total de desligamentos entre pessoas com ludopatia que já estavam temporariamente afastadas do trabalho para tratamento, de acordo com estudo antecipado à Folha pela pasta.

A fatia de contratos formais encerrados entre trabalhadores desse grupo passou de 35% do total em 2023 para 42,5% em 2025. Ou seja, 4 em cada 10 beneficiários do auxílio por ludopatia saíram de seu emprego formal ao término do ano passado.

A maioria, quase 70%, foi a pedido dos trabalhadores ou sem justa causa, seguindo uma tendência padrão do mercado de trabalho.

Paula Montagner, subsecretaria de Estatísticas e Estudos do Trabalho e autora do estudo, diz que não há dados suficientes para confirmar que a alta no número de demissões foi provocada pelo vício em jogos.

Mas ela afirma que os poucos dados disponíveis são bastante claros em relação ao vício que os jogos eletrônicos criam.

“A restrição aos jogos é uma medida que busca recuperar a saúde mental dos brasileiros, em especial dos trabalhadores que, na busca de alguma ajuda financeira, terminam endividados em proporções desesperadoras”, afirmou.

O levantamento foi feito pela Subsecretaria de Estatísticas e Estudos do Trabalho, com base em informações do Ministério da Previdência Social e do Ministério do Trabalho. O auxílio é concedido quando o segurado fica temporariamente incapaz de trabalhar devido ao vício em jogos, com necessidade de ser afastado para tratamento médico ou psiquiátrico.

Ainda segundo o estudo, homens foram os principais afetados e correspondem a 7 em cada 10 beneficiários do auxílio ligado à ludopatia. Por faixa etária, quase 67% têm entre 30 e 49 anos.

A ludopatia é descrita como transtorno mental pela OMS (Organização Mundial da Saúde). A comprovação decorre de perícia médica oficial do INSS atestando que o vício impede o exercício do trabalho.

“Estes dados iniciais ainda precisam ser tomados com bastante cuidado, na medida em que representam grupos reduzidos que têm acesso a esse benefício. No entanto, ilustram os problemas associados à patologia do jogo que precisa ser combatida de forma bastante radical”, afirma trecho do estudo.

As casas de apostas foram regulamentadas no fim de 2023, quando puderam ampliar a publicidade para conquistar novos jogadores. Em 2024, primeiro ano de vigência das regras, o total de afastamentos do trabalho por vício em bets saltou para 136, mais que o dobro do registrado no ano anterior.

Segundo o levantamento, a legalização dos jogos mostra associação estreita com o aumento de casos de ludopatia na população. Há, no entanto, poucos estudos nacionais sobre essa comorbidade.

As bets foram proibidas no Brasil em 25 de setembro deste ano, a nove dias do primeiro turno das eleições, como uma aposta para alavancar a popularidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), candidato à reeleição. Até a proibição, o governo havia vendido 85 outorgas a R$ 30 milhões cada com permissão para explorar a atividade por cinco anos.

Como mostrou a Folha, 43,8 milhões de brasileiros já tinham apostado até o fim de agosto deste ano. A quantidade de jogadores ativos vinha em queda até a proibição, devido a restrições já implementadas contra beneficiários de programas sociais e do programa Desenrola, contra o endividamento.

Os brasileiros depositaram R$ 220,6 bilhões nas bets em 2025. Do total, R$ 36,9 bilhões representaram perdas para os apostadores, que se converteram em receitas para as empresas.

O veto às apostas online pode liberar até cerca de R$ 40 bilhões por ano no orçamento das famílias, segundo levantamento feito pela Folha. A estimativa leva em conta o montante da receita bruta obtido em um ano pelas empresas de apostas online até então autorizadas. Ou seja, o valor perdido pelos apostadores.

Procurado nesta segunda-feira (19), o IBJR (Instituto Brasileiro de Jogo Responsável) não respondeu ao pedido de manifestação da reportagem.

Fonte: Folha SP

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