A ilusão da inflação baixa

14/07/2026

Desa­ce­le­ra­ção em junho não deve­ria ani­mar, por­que a pres­são estru­tu­ral sobre os pre­ços per­ma­nece

O ín­dice ofi­cial de infla­ção desa­ce­le­rou de 0,58% em maio para 0,16% em junho, um resul­tado melhor do que o espe­rado pelo mer­cado finan­ceiro, cuja medi­ana era de 0,31%, segundo o Pro­je­ções Bro­ad­cast.

Foi o menor resul­tado para o mês desde 2023, oca­sião em que o IPCA regis­trou uma defla­ção de 0,08%, e o sufi­ci­ente para que parte dos ana­lis­tas enxer­gasse o copo meio cheio e, con­se­quen­te­mente, um acerto na deci­são do Banco Cen­tral que redu­ziu os juros no mês pas­sado para 14,25% ao ano e mais espaço para o anún­cio de um novo corte na reu­nião dos dias 4 e 5 de agosto.

Não há quem não deseje que o País tenha uma taxa básica de juros mais civi­li­zada, mas os núme­ros exi­gem mais san­gue frio. O alí­vio veio, sobre­tudo, do grupo Ali­men­tos e Bebi­das, que caiu 0,24%, um com­por­ta­mento comum nessa época do ano, tanto que ocor­reu em 2025 e 2023. O grupo é um dos que mais pesam no cál­culo do índice (21,75%) e, sozi­nho, con­tri­buiu com um impacto nega­tivo de 0,05 ponto por­cen­tual no índice cheio.

Parte da defla­ção de ali­men­tos, segundo o IBGE, está rela­ci­o­nada ao com­por­ta­mento dos com­bus­tí­veis, que recu­a­ram pelo segundo mês con­se­cu­tivo e caí­ram 0,48% em junho. Os com­bus­tí­veis tam­bém são um dos que mais têm peso no cál­culo da infla­ção, com 6,22%. Seu desem­pe­nho foi influ­en­ci­ado pela redu­ção das cota­ções do bar­ril de petró­leo após o ces­sar-fogo anun­ci­ado por Esta­dos Uni­dos e Irã – uma tré­gua que, como se espe­rava, nem de longe repre­sen­tava o fim defi­ni­tivo do con­flito.

Seria absurdo dizer que o cená­rio como um todo melho­rou ape­nas por conta de um resul­tado pon­tual do IPCA, mesmo por­que os pro­ble­mas da infla­ção per­ma­ne­cem fun­da­men­tal­mente os mes­mos. Em 12 meses até junho, o IPCA acu­mula alta de 4,64%, acima da meta de 3% e do limite supe­rior, de 4,50%. Os ser­vi­ços subi­ram 0,34% em junho, mas ainda rodam bem acima da infla­ção cheia e regis­tram alta de 5,9% em 12 meses.

Quanto ao segundo semes­tre, às incer­te­zas sobre a guerra no Ori­ente Médio somam-se as pro­vá­veis pres­sões que virão das con­se­quên­cias do Super El Niño na safra agrí­cola. O mer­cado de tra­ba­lho con­ti­nua aper­tado, e a taxa do desem­prego medida pela Pnad Con­tí­nua fechou em 5,6% no tri­mes­tre encer­rado em maio, a menor para o perí­odo, de acordo com o IBGE.

As pro­je­ções de infla­ção para o cha­mado “hori­zonte rele­vante” que guia as deci­sões do Banco Cen­tral – seja o último tri­mes­tre de 2027, seja o pri­meiro tri­mes­tre de 2028 – per­ma­ne­cem acima do cen­tro da meta. O pró­prio Banco Cen­tral reco­nhe­ceu que há mais chan­ces de que a infla­ção suba do que caia nos pró­xi­mos meses.

Nin­guém sabe se Luiz Iná­cio Lula da Silva vai real­mente cum­prir o defeso elei­to­ral, mas as medi­das de cré­dito que o governo lan­çou nos últi­mos meses mal entra­ram em vigor. Tudo isso seria mais que sufi­ci­ente para que o Banco Cen­tral revisse o plano de corte de juros que sina­li­zou em março. Fos­sem outros tem­pos, a auto­ri­dade mone­tá­ria seria a pri­meira a reco­men­dar que o índice de infla­ção regis­trado em junho fosse inter­pre­tado com mais pru­dên­cia e menos entu­si­asmo.

Fonte: Estadão

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