Bem-vindo ao site do Sindicato dos Bancários de Tubarão
Nos próximos dias, o Congresso Nacional decide sobre o que pode ser um marco para as relações de trabalho no Brasil
Com a proximidade da votação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC 221/2019), que propõe o fim da escala de trabalho 6×1 no Brasil, a ANABB publicará, semanalmente, a partir desta quarta-feira (20), uma série de matérias sobre os impactos desse modelo de jornada na economia, os setores mais afetados e a substituição da mão de obra humana pela inteligência artificial.
As empresas realmente terão prejuízos com o fim da escala 6×1? A série abordará temas como os ganhos das empresas com a substituição de trabalhadores pela inteligência artificial, as profissões mais afetadas por esse processo e os impactos nas desigualdades sociais.
A série de seis matérias, que será publicada semanalmente, trará estudos e dados sobre a margem de lucro das empresas, as condições econômicas de absorção de custos de uma eventual redução da jornada de trabalho, experiências de outros países com a reorganização do trabalho, a evolução dos ganhos de produtividade e os seus principais beneficiados históricos.
Países que reduziram jornadas ou ampliaram períodos de descanso registraram, em muitos casos, ganhos de produtividade e melhora no bem-estar dos trabalhadores, resultados que variam conforme o setor e a forma de implementação.
Na primeira matéria da série, trazemos a entrevista com Adriana Marcolino, diretora técnica do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE). Boa leitura!
Como você avalia o fim da escala 6×1, que está em discussão no Congresso Nacional? Se o projeto for aprovado, haverá ganho na qualidade de vida do trabalhador?
Com certeza. Ter apenas um dia por semana destinado à convivência familiar, ao descanso e à organização da semana é muito pouco. Muitas pessoas usam o fim de semana para lavar roupa, fazer compras e deixar alimentos prontos para a semana seguinte. Um único dia para tudo isso é insuficiente.
A classe trabalhadora está constantemente trabalhando, seja no trabalho remunerado, seja no trabalho doméstico. Isso gera uma exaustão muito grande e compromete a convivência social, a cultura, o lazer, os estudos e a vida familiar.
Quais setores econômicos seriam mais afetados pela mudança no modelo de escala?
Hoje, os setores que mais utilizam a escala seis por um, segundo dados do Ministério do Trabalho e Emprego, são a agricultura, em primeiro lugar, seguida de alguns segmentos dos setores de serviços e comércio. Temos também a indústria, especialmente a de derivados de petróleo, máquinas e equipamentos eletrônicos. Esses setores têm uma participação que varia entre quarenta e cinquenta por cento da mão de obra no modelo da escala seis por um.
É importante destacar também que a agropecuária, setor que mais utiliza a escala seis por um no Brasil, tem recebido subsídios consideráveis do governo, oferece os menores salários e registra os maiores índices de produtividade do país. Portanto, será um dos setores mais afetados pelo fim da escala seis por um, mas possui ganhos suficientes de produtividade e lucratividade para absorver essa mudança.
Adriana, estamos vivendo um momento em que tarefas podem ser realizadas por inteligência artificial, reduzindo a carga de trabalho das pessoas, que vai de encontro a ideia do fim da escala seis por um. É possível dizer como será o impacto nas relações de trabalho nesse estágio da automação em que nos encontramos com a expansão da inteligência artificial? Mais postos serão gerados, eliminados ou transformados?
A avaliação é que a automação, com a expansão da inteligência artificial, poderá impactar cerca de um quarto do trabalho ao redor do mundo. Haverá uma mudança no conteúdo das atividades. E o saldo da geração de empregos, a depender de cada país, será negativo ou positivo, dependendo muito de como cada um está inserido nessa tecnologia.
Se um país é apenas consumidor de tecnologia, muito possivelmente terá impactos negativos no mercado de trabalho, eliminando postos sem conseguir gerar os bons empregos que essa tecnologia possa promover. Se eu sou produtora de tecnologia, se sou um país produtor de tecnologia, então, muito possivelmente, vou eliminar alguns postos de trabalho, mas conseguirei criar outros, inclusive em segmentos de maior valor agregado e, portanto, ocupações de melhor qualidade.
Você poderia dar um exemplo?
No caso dos serviços de entrega por aplicativo, como entrega de alimentos prontos e transporte de passageiros, a tecnologia, que é desenvolvida fora do Brasil, gera bons empregos lá fora e aqui sobram os empregos precários.
E, nesse cenário, as grandes empresas vão lucrar mais que as pequenas?
Depende da capacidade de investimento em tecnologia por parte dessas empresas. As grandes empresas têm mais capacidade de investimento em inovação e tecnologia. As pequenas têm menos capacidade de investir nesse setor. Então, se uma pequena empresa tiver capacidade de investir, ela também poderá lucrar muito. Tudo depende da capacidade de investimento.
Em alguns setores, nos casos de países periféricos como o Brasil, tanto pequenas quanto médias e até grandes empresas, às vezes, avaliam que é melhor continuar utilizando a mão de obra, pois ela é abundante, barata, e o custo para substituí-la não é alto. Colocando na balança, às vezes o investimento em tecnologia nem vale a pena quando comparado à mão de obra, que é muito barata.
Vou contar uma história que pode servir de exemplo. Tivemos, uma vez, a oportunidade de acompanhar uma empresa de fundição, uma empresa alemã, com capital alemão. As condições de trabalho eram bastante ruins. Existiam tecnologias que poderiam ser implementadas na empresa. Ela poderia implementar essas tecnologias e esse maquinário para melhorar a saúde dos trabalhadores. Os dirigentes da empresa disseram o seguinte: “Nós viemos para o Brasil porque a mão de obra é barata. Se tivermos que fazer esses investimentos, teremos um custo tão alto que aí vale a pena continuar na Alemanha”. Portanto, nem sempre a empresa acha melhor investir em automação.
Quais profissões tendem a ganhar mais espaço, falando especificamente do Brasil?
Falando em Brasil, as ocupações que tendem a ganhar mais espaço são aquelas envolvidas na tecnologia da informação e comunicação, como analistas de dados, técnicos de informática e engenheiros de computação, por exemplo. Esse conjunto de ocupações está inserido nessas tecnologias. Agora, de novo, essas ocupações serão criadas em maior grau se o Brasil tiver uma política indutora do desenvolvimento nesse setor.
Outro exemplo: se estivermos montando data centers no Brasil, haverá uma política de atração de data centers. Agora, se tivermos apenas o pessoal que vai operar o data center, até haverá geração de empregos nesse setor, mas em menor quantidade e de menor qualidade.
Se começarmos a desenvolver as tecnologias e os equipamentos para montar o data center, teremos um melhor posicionamento na geração de emprego e renda no setor.
E quais trabalhadores ficam mais vulneráveis quando máquinas e algoritmos substituem seres humanos?
Depende do setor. São mais vulneráveis os setores medianos da estrutura profissional e de qualificação, que executam tarefas passíveis de incorporação pela automação. Muitas vezes, são tarefas repetitivas que podem ser automatizadas, seja com inteligência artificial, robotização ou outras ferramentas de automação do trabalho.
Pode ser que não haja uma substituição de cem por cento, mas pode haver uma redução na quantidade de atividades feitas pelo trabalhador humano. Um trabalho realizado por dez pessoas pode passar a ser executado por quatro, por exemplo.
As atividades de caráter repetitivo são, hoje, as que podem ser automatizadas. Então, dentro de algumas ocupações, várias tarefas podem ser automatizadas. Haverá um enxugamento na quantidade de trabalhadores.
E as desigualdades sociais? Elas aumentam, diminuem com a automação ou não há nenhuma influência?
Da forma como as tecnologias estão sendo utilizadas hoje, elas aprofundam as desigualdades. Elas não têm a característica, da qual temos falado muito, de serem complementares ao trabalho humano, como uma ferramenta que reduz o esforço físico e o trabalho repetitivo.
Nesse sentido, se tivéssemos tecnologias complementares ao trabalho humano e também desenvolvidas nacionalmente, teríamos capacidade de utilizar essa ferramenta, inclusive, para reduzir desigualdades. Mas, não sendo assim, o que temos visto é que as tecnologias estão sendo usadas para aumentar intensamente o lucro das empresas e precarizar, de forma muito contundente, a vida dos trabalhadores e trabalhadoras.
Então, hoje, efetivamente, as tecnologias aprofundam as desigualdades. Elas aumentam a exploração do trabalho e ampliam, inclusive, desigualdades de gênero e raça que já existem no Brasil.
E, com relação à inteligência artificial, quem mais se beneficia dessa ferramenta: consumidores, empresas, governos ou ela é equânime?
Todos têm seus benefícios dentro das próprias necessidades. Hoje, quem mais se beneficia, com certeza, são as grandes empresas. As big techs são as que mais se beneficiam. Atualmente, estados e consumidores aparecem, inclusive, como agentes que ajudam essas empresas a se valorizar.
No caso dos consumidores, mesmo aqueles que utilizam a inteligência artificial de forma gratuita ajudam a treinar essas tecnologias. Ou seja, é gratuito justamente porque o conteúdo que postamos ali vai alimentando e treinando a inteligência artificial.
No caso dos governos, como esse setor está muito concentrado nessas grandes empresas de tecnologia, os estados estão perdendo o que chamamos de soberania digital. Muitos dados sensíveis dos estados ficam armazenados nas bases dessas big techs. Isso impõe um problema de soberania digital.
Essas empresas estão instaladas em outros países. Grandes big techs, por exemplo, estão nos Estados Unidos e seguem protocolos das empresas de capital norte-americano, inclusive ligados à defesa militar do país, que permitem acesso a determinadas bases de dados das empresas instaladas lá. Isso impõe ao Brasil, particularmente, a necessidade de repensar toda a sua estratégia de uso de e-mails, nuvens e plataformas de trabalho que pertençam a essas grandes empresas.
Fonte: ANABB
E comece a receber as notícias semanalmente direto no seu e-mail!
O Jornal do Sindicato dos Bancários foi elaborado para trazer informações do cotidiano, dos eventos e as notícias referente a classe bancária.
O Sindicato dos Bancários sempre empenhado em manter um ótimo relacionamento, propor uma inúmeros eventos aos seus associados.
O Sindicato dos Empregados em Estabelecimentos Bancários de Tubarão e Região foi fundado em 31 de agosto de 1958 e reconhecido em 20 de maio de 1959, com a finalidade de representar os bancários perante os poderes constituídos na defesa dos direitos e interesses coletivos e individuais da categoria, inclusive em questões judiciais ou administrativas e atuando sempre em busca de uma sociedade melhor.